Qual a “brasilidade” de nosso design e de nossa arquitetura?

Quando fui convidada a escrever um texto para o Notícias da Zona com a intenção de abrir um debate, encontrei mais um caminho para apresentar uma questão que me coloco há muitos anos.

Sou arquiteta, trabalho com design e leciono. Desde dos primeiros anos da graduação busco em São Paulo, em livros, em conversas com professores e agora num mestrado uma identidade em nosso design e em nossa arquitetura.

Ao se falar em design italiano lembra-se das linhas puras, elegantes, do refinado. O design japonês é tecnológico, em miniatura. E o brasileiro? Qual a nossa força? Qual o substrato que rege as nossas criações?

No começo busquei respostas na Semana de Arte Moderna de 22 com sua questão antropofágica. Sergio Milliet, Mario de Andrade, Tarsila do Amaral, entre outros, mostraram com maestria que entenderam o Brasil e o regurgitaram na forma interpretada por seus olhos. Isto foi interessante, mas não um moto contínuo.

Continuando a busca, deparei-me, inevitavelmente, com a genial Lina Bo Bardi, que também “antropofagicou” o que viu aqui no Brasil, mas de uma forma bastante própria. Estudou durante toda a sua vida as expressões artísticas brasileiras mais puras. Para isso foi até a Bahia. O livro “Avant-Garde na Bahia” de António Ristélio conta com detalhes esta época.

Ela esclarece que os artesãos brasileiros não dedicam tempo aos acabamentos e aos detalhes, mas constroem suas figuras em barro, madeira, palha, entre outros, sem refinamento. Sua explicação está no livro “Tempos de Grossura: o Design no Impasse”, da editora do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. Ela diz, em poucas palavras, que não temos tempo a perder com detalhes. Queremos o santo pronto para poder rezar por dias melhores.

O próprio Euclides da Cunha em “Os Sertões” descreve os santos de uma igreja como feios e toscos.

Isto mostrou que somente a antropofagia não revela o que somos em nossa essência. Provavelmente ainda estamos trilhando caminhos diversos, experiências, que no futuro provavelmente se encontrarão em nossa identidade. Quem sabe…

Somos uma nação jovem para termos uma identidade formada. 500 anos são muito pouco se comparados aos séculos da Europa.

Em “Raízes”, de Sergio Buarque de Holanda, encontramos atitudes semelhantes entre nossos colonizadores e os políticos de hoje. Por que não encontramos semelhanças entre os móveis coloniais e o design contemporâneo?

Obrigada
Roberta Cosulich

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