Cerâmica 02
Cerâmica 02

Cerâmica 02

Designer: Caroline Harari

São cântaros, bilhas, moringas, potes, pratos, cumbucas. Utensílios imemoriais, associados às humildes fainas da sobrevivência cotidiana, o beber, o comer, o cozinhar. Objetos utilitários, mas também de uso cerimonial, quando neles o homem leva às divindades suas oferendas. É dessa matéria essencial que se ocupa a cerâmica de Caroline Hariri. A simplicidade, aqui, resulta de um longo processo de depuração, sustentado pelo trabalho obsessivo da historiadora que há por trás da ceramista. Ciosa de seu ofício, desde o início ela procurou inventariar e compreender seus materiais, suas técnicas, suas formas, apenas para descobrir, no Brasil, tradições que se repetem, dos diferentes povos africanos às civilizações pré-colombianas da América que estão em nossas raízes.

O mesmo barro, os mesmos tons castanhos e avermelhados, o branco, o preto, o uso do engobe, os incisos bem definidos. As mesmas técnicas de produção, o torno, o rolinho, a pressão manual. Os mesmos procedimentos de queima nos fornos de lenha. As mesmas formas, que não devem passar de dez ao todo, com variações ligadas ao modo de vida dessas diferentes civilizações. Este foi o começo. E logo descobriria também que, entre aqueles povos, tal como entre os artesãos populares que herdaram suas tradições, a precariedade das condições de vida aos poucos faria minguar o conhecimento dos materiais e das técnicas, resultando em quebras de queima e perda de qualidade no acabamento das peças. Eis porque Caroline Harari se dedicou a pesquisar exaustivamente a produção cerâmica, da qualidade do barro aos processos de queima, para alcançar enfim a inacreditável leveza de suas peças feitas em fornos de alta temperatura, da mais moderna e sofisticada tecnologia.

Foi nessas peças que, aos poucos, ela passou a introduzir também outro elemento de raiz em nossa cultura, as rendas e os bordados de origem européia, imprimindo diretamente na forma moldada seus elaborados desenhos. Daí resultaram essas criações originalíssimas, onde às vezes o próprio barro se converte em renda ou o bordado nele recria delicadas incisões e relevos de um barrado que ali fosse gravado de modo aleatório. O que em todas elas se preserva são as mesmas formas primordiais e o gesto primitivo da mão que modela o barro, como desde sempre fez o homem para criar objetos cerâmicos, de uso seu e de seus deuses.

São peças caracteristicamente brasileiras, em seus traços afro-ameríndio-lusitanos, mas também, por isso mesmo, universais. Eis o segredo da contemporaneidade dessa criação que, em suas formas de expressão arcaicas, fala por todas as Áfricas e todas as Américas, na esperança de evocar em nós o essencial, o que nos é comum e nos torna parte de uma mesma humanidade. Esta é a lição da arte de Caroline Harari. A África é aqui.